sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Em um canto


Há um canto...
Em armário velho, as sobras
Tintas, pregos e parafusos
Há um baú onde estão
Presente e passados
Álbum com lembranças
Um dia talvez eu precise
Consertar alguma coisa
Retocar as paredes
Objetos em cantos guardados
O cheiro do desprezo
O mofo do abandono
Mas um dia eu posso precisar
Dias e anos, a ideia
Posso precisar...
Crianças não toquem nisso
Há coisas que eu vou precisar
Em nosso coração a um canto
Como um baú bem fechado
Onde colocamos Deus
Um dia eu posso precisar...
Um deus, ideia, objeto
Em nossa tolice
Guardar o que não é limitado
Guardar o insondável
Ele está em todos os espaços
Em toda casa
No céu, na terra
Além das estrelas, ele está
Não se guarda o que não se tem
O Deus criador nunca será sobra
O deus objeto está morto
O Deus verdade está vivo
Para quem o conhece
Ele está em todos os cantos
Nunca será sobra
Nem sombra
Ele é luz.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Repetição


Nas repetidas manhãs
Nos vêm os pardais
O orvalho e flores
A vida em festa para quem traz seu repetido olhar
O crepúsculo se repete
Na noite as estrelas repetem seus brilhos
Para quem traz seu repetido olhar
Nos tornamos velhos em repetir a juventude
Nos tornamos jovens em repetir ser criança
Nos tornamos bons músicos
Repetindo o manuseio com o instrumento
Nada se apresenta pronto desde o berço
Repetidas sensações, nos trazem o prazer
O Belo e o bom nos invade a alma
Quando repetimos nosso olhar
Olhar de uma só vez é virtual
O repetido olhar nos faz real
O olhar paixão, olhar de amor
Repetir o perdoar
Setenta vezes sete...
Comunhão, recomeçar
Em repetições o que se deve rejeitar ?
O que mata o corpo ?
O que destrói a alma ?
O que esperar de uma olhar a primeira vista ?
A confirmação de um amor
Repetição de olhares confirma a intenção
Tudo em nossas vidas são atos de repetição
Palavras repetidas, séculos após séculos
Quem crer em mim... repetirá o que já fiz...
Ressurgir dos mortos
Repitamos a nossa atenção
O dia se aproxima
E neste dia não haverá mais tempo
Para repetição.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

João 3:16


Sempre no mesmo trem
Santa Cruz à Central
Vagões lotados, homens prensados
Cansados, olhares fundos e mudos
A cada estação um turbilhão
Empurrões, palavrões, ufas!
Falta assento, falta espaço
Os camelôs aos gritos
Amendoim torradinho
Bala de hortelã
Quem vai querer ?
Como viaja o pensamento...
Os que constroem casas não têm tetos
As que fazem sapatos andam de chinelos
De repente surge um magrinho
Quebrando o sono de todos
Porque Deus amou o mundo de tal
Maneira que deu seu filho unigênito para todo
Que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna
Terminava dizendo João 3:16
Quero dormir, cale a boca !
Outros, aqui não é lugar !
Eu não mereço, dá um tempo!
O magrinho não calava
Repetia as palavras
Colocando sua cabeça na bandeja do julgar
Risos, deboches silenciosos
Uns vendem balas, outros amendoim
Eu não vendo nada, trago a resposta
Para sua viagem... viagem pro céu
Os olhares sem nada entender
Todos os dias o magrinho clamava
No balanço do trem
Acordava alguns para A Vida
Com seu João 3:16

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tenho pensado


Nas tardes chuvosas
Fico em meu leito cismando
Elucubrações são muitas
Nosso tempo, as vidas
Sou um caniço pensante
O vento vem para vergar
Reflexões prosaicas são mais agradáveis
Mas temos coisas graves, inumeráveis
Não são banais
As possibilidades são muitas
Sabe o que muitos irão fazer amanhã ?
Chorar e lamentar
Os poderosos irão cometer os mesmos atos sórdidos
São sessões de torturas, que prazer!
Gente que fala contra o tráfico
Usa cocaína, na beira de suas piscinas
A sociedade a beira de sua falência
Tudo descrito em tintas confusas
Obscura tragédia em que mergulhamos
Como será o jornal amanhã ?
Ele nos revela aos poucos
A poesia também precisa mostrar
O que muito se recusam a ver
Voltemos nossos olhar o mais rápido
À lama em que nos colocamos
Ou fomos colocados?
Amanhã nosso rosto pode ficar mais sujo
Quando as nuvens estão carregadas
Sabemos que vem chuva
Há momentos que não temos clareza
Que direção tomar
Mas precisamos saber o que evitar
Entre o falso e o verdadeiro prezar
Há quem só acredita em seus sentidos
Há quem não acredita nada além dos seus sentidos
Sou um caniço pensante
Tudo está consumado
Guardo dentro de mim
Eles não sabem o que fazem
Tudo está consumado
Jesus foi além de um túmulo
Nos ensinou a fazer distinção
Entre vida e a morte
Sou um caniço pensante
Como estará o mundo
No dia de sua volta ?